sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ROMANCE "Escrito no céu"



Capitulo 01

1994, Rio de Janeiro,


O pensamento Cria;
O desejo Atrai;
A fé Realiza…Maktub - estava escrito….

Todo o homem acredita ter o poder de escrever sua própria história, de guiar seus próprios passos, e sem precisar da ajuda de Deus. Como se o homem pudesse mudar o que está escrito. Por isso, Deus escreveu Maktub e ninguém pode fugir do seu destino…está escrito.

Sentada na areia, olhava o mar, quase distraída e um tanto quanto embevecida. Parecia não ter mais fim, todo aquele aclamar de beleza e, embora lá estivessem milhares de pessoas, se sentia unicamente sozinha. Em paz para poder pensar, talvez, até relembrar acontecimentos maravilhosos que pela sua vida passaram. E poder dizer que a felicidade era ter conseguido amar daquela maneira, e ter sido amada na mesma proporção.

A gravidez havia feito com que o amor que existia entre eles crescesse ainda mais. Por vezes, sentia-se frágil e ao mesmo tempo, que o medo de um dia perder todo aquele amor se instalava, por outro lado, o contrário de todo aquele sentimento existia uma segurança. Como se todo aquele amor estivesse escrito nos céus e, que de nenhuma forma, nada e nem ninguém pudesse ter a capacidade de destrui-lo. Como se fosse indestrutível.

Stella era uma mulher irresistivelmente bela. Dona de uma pele branca, de um cabelo escuro e longo. Olhos castanhos, profundos e ao mesmo tempo questionáveis.

Continuava com os contornos de sua silhueta perfeitas – mesmo com uma gravidez de 8meses – ainda era uma bela mulher.
O celular tocou simultaneamente, e num único movimento, levou sua mão a bolsa e retirou de lá o celular. Era confidencial, por isso, hesitara em atender de imediato. Mas, acabou cedendo e levou o auscultador ao ouvido:

-Sim?

Por breves instantes, não escutou nenhuma voz que pudesse prendê-la no celular. Pelo menos, durante os vinte segundos que se seguiram.

-Uma vez escutei alguém dizer: “Louco é o viajante que quer construir uma casa no caminho.” E me lembro que pensei, “Meu Deus, o que será que ela quer dizer com isso? Achar-me-ia um louco sem um caminho definido?”

Ela voltou o rosto para trás e um sorriso tomou conta dos seus lábios. Queria sorrir, e ao mesmo tempo chorar. De toda a surpresa vê-lo, mesmo que distante, caminhando na sua direcção, era perfeito.

Ele era loiro, de olhos azuis. Envergava uma t-shirt branca, que revelava o seu corpo atlético. Trazia uma calça branca, sapatos também eles da mesma cor. E tinha o seu andar como não existia igual – um tom de descontraído e ao mesmo tempo, viril.

-Mas tem coisas que não se deve tentar entender. – Disse ela, olhando na direcção dele. – Por vezes, basta aceitar. Pode até pensar, mas simplesmente aceitar.

A praia estava vazia. Não existiam mais pessoas algumas. E o silêncio, também não mais existia. O que estava lá, era o encontro de duas pessoas. Só que com uma só ligação…a força misteriosa.

-Por isso caminho, no meio de todo esse vazio. Não que não seja boa. O silêncio é muito bom. Mas o que me atrai mesmo é saber que existe uma mulher. – Continuou, enquanto andava. – Sim! Consigo sentir a presença dela, ocupando todo o espaço, somente com o suave cheiro do seu perfume. Sinto a sua pele como se fossemos dois em um. Ela está ali, olhando o mar, e falando no celular.

Talvez, esteja dizendo: “Eu não sei por que te amo, mas amo você.” E do outro da linha, ele diz: “Ainda bem que você me ama, porque eu te amo e sei porquê. “

Ela se deixou ficar de frente para o mar. Olhava o horizonte, extenso. O mar, chegava a ficar brilhante.

-E ela pergunta: “Porquê você me ama?” como se procurando a resposta pra uma dúvida agoniante. Mas por breves instantes, somente sente a respiração dele. – Dizia. – Finalmente, a voz dele se assume: “Pelo que eu me torno, quando estou com você!”.

Ainda se mantinham a uma distância considerável um do outro.
-Ele está perto de saber todos os seus pensamentos. O dela…aquela que permanece falando no celular, e ao mesmo tempo, com uma delicadeza irresistível, olha o mar. – Prosseguiu. – Ele tem um pouco de medo. Medo de descobrir que a mulher misteriosa, é na verdade casada. E talvez o marido a ame muito, incalculavelmente. É um risco tão grande. – Disse ele, parando atrás dela. – Ele está diante dela. Não definitivamente, porque ela continua falando no celular e olhando o mar, numa posição apaixonante. Posso apostar, que tudo que ele mais quer nesse momento, é tomá-la nos seus braços. Mas ele não sabe o que ela quer.

Ela fechou os olhos uma vez e voltou a fixa-los no mar.
-Ela ainda não viu seu rosto. Mas sentiu o seu cheiro, a forte presença dele, atrás do seu corpo. Naquela direcção, o vento sopra um calor, embora desconhecido, muito agradável. – Continuou. – Eu sei o que ela quer. E não está nos seus planos deixar o calor desconhecido, se perder, por entre a imensidão do mar. Neste preciso instante, ela volta um pouquinho só o rosto para tentar encontrar a sombra que revele que ele está mesmo ali. – Voltou um pouco o rosto na direcção dele. E assim que se levantou, voltou-se pra ele. - Ele é tudo o que ela procura num homem. E mesmo sem conhecê-lo, seu corpo parece conhecer as mãos dele, e é tão estranho a forma como se conectam.
-Como se fosse um eclipse?
Ela acenou com a cabeça.
-Sim. Como se fosse um eclipse do amor!
Olhavam-se olhos nos olhos. Sem desviar por um segundo o olhar.
-E todo eclipse, acaba por se chocar. Ele é o sol…
-Ela é a lua…
Estavam a distância de alguns centímetros.
-Ele quer se chocar com ela para que o eclipse do amor se forme.
-E sem mais demora, os dois contam ao mesmo tempo, até três e depois dessa breve contagem, concluem que estranhamente estiveram falando um com o outro, mesmo sem saber.
Ele observava-a com toda a calma. Mesmo grávida reacendia todo o tempo a chama que a sua pele exercia nele.
-Ele diz pra ela: “Vou desligar, porque preciso te beijar.” E…
-Ela não deixa ele terminar e crespa seus lábios nos dele.
O simples roçar dos seus lábios, provocou nos seus corpos uma vontade intensa de nunca mais deixar aquele momento passar. De revivê-lo todos os dias.

O mar e o vento, tornavam-se testemunhas de uma felicidade não passageira, mas aquela que encontrou uma estrada pra percorrer.
Por vezes, existem coisas inexplicáveis. Coisas, essas que a gente não entende, e que por vezes, chegamos a não aceitar. No entanto, os caminhos que percorremos, não o fazemos sozinhos. Podemos pensar que sim, mas é quase um erro. Nenhum homem é capaz de mudar o que está escrito. É imutável, e contra o destino nada e nem ninguém consegue ir.

As vezes, era bom, quando ele podia sentir a cabeça dela junto ao seu ombro. Não se tratava de poder. E sim, de sentimentos.
Tony colocou uma música na rádio pra que pudessem relaxar mais um pouco. E a cabeça dela continuava junto ao seu ombro e, as suas mãos entrelaçavam a sua cintura. Procurando um conforto único.

Já havia anoitecido, e naquele momento, ele dirigia o seu carro pra casa. A viagem havia tomado muito de si, e descansar era a única coisa que queria de verdade.
-O seu pai deve ta uma fera, porque você deixou tudo em Portugal e voltou!
Ele sorriu.

-É. Acho que sim! Mas não dava pra ficar mais algum tempo lá, e poder ter a possibilidade de não ver o meu filho nascer, de estar do lado da minha mulher. – Disse ele. – Não tem dinheiro que me prenda em Portugal, nesse momento da nossa vida. Não tem nada que me prenda lá, e que me faça ficar longe de vocês!
-Amo você Tony!

Ele aproximou-a ainda mais do seu corpo.
-Eu sei que sim. – Silenciou-se, por instantes. – Não tenho dúvidas disso, pode ter a certeza! E isso faz de mim, o homem mais feliz deste mundão todo!

Se beijaram mais uma vez. E mais uma vez, com o mesmo gosto que da primeira vez.

E de repente, tudo pode mudar. Sem que a gente dê por isso, a história retêm uma reviravolta surpreendente, e nem sempre boa. Porque é só o princípio da história. Estava escrito assim…
O tempo mudou repentinamente. As nuvens tornaram-se negras e o céu, parecia furioso. Não existiam mais estrelas e nem a lua apareceu.

Chovia bastante. O mundo parecia pequeno, quase minúsculo, diante da fúria da natureza. Podia se dizer que era disso que se tratava.

As pessoas procuravam abrigos, em lugares, onde o vento não podia chegar. Mesmo que chegasse, onde não podia ter o mesmo poder que teria ao ar livre.

As árvores ressarciam um barulho, atormentante. Suas folhas chocavam-se uma contra a outra, simultaneamente.
Tony perdeu repentinamente o controlo do carro. Queria travar, mas não conseguia travar. E a cada segundo que a ideia de ter perdido o controlo do carro se instalava, o seu corpo tremia. Quase sem controlo.

-O que você está fazendo? – Perguntou ela, olhando pra a ponte.
Ele abanou a cabeça, enquanto tentava a todo o custo voltar a assumir o controlo do carro.
-Não sei o que ta acontecendo. – Gritou. – O carro está sem travões. Alguém cortou os travões do carro!
Ela voltou o rosto para ele, num misto de susto e medo.
-Tony…

Quando tem que acontecer, nada pode impedir. Porque existe algo muito maior.

Stella procurou a mão dele e apertou-a com toda a sua força. Queria sentir seu calor, mesmo que fosse a última vez.
Ele olhou o rosto dela, por instantes. Uma lágrima escorregou dos olhos dela e escorreu, até ao fim da linha.

Talvez estivessem se entregando sedo demais a morte. E aquele garoto que iria nascer? Ele tinha o direito de nascer.
Tony tirou o cinto de segurança e retirou o dela também, e no mesmo segundo, abriu a porta. Não tinha certeza do que estava fazendo, simplesmente tinha a certeza que precisava fazê-lo.
Num ápice, ele jogou ela pra fora do carro e mal teve tempo de pular, porque o carro chocou contra um camião e capotou três vezes.

Podemos até pensar que estamos mudando o que está escrito, mas a verdade é que nenhum ser humano, consegue mudar a escrita de Deus…

Ela estava caída no meio da estrada, ensanguentada. E mais adiante, o carro começava a arder em chamas.
As pessoas corriam pra o local do acidente. Todos tinham dúvidas, mas queriam olhar. Ver…

Dois homens conseguiram, abrir a porta do carro e ajudar Tony a sair. Por sorte, o máximo que acontecera com ele, fora deslocar a perna, alguns machucados, mas nada que pudesse ser considerado grave. Tão muito pouco, ele pensava no que acontecera ao seu rosto, a sua perna e a qualquer parte do seu corpo.

O que realmente o preocupava era a mulher. Por isso, correu o mais depressa que podia na direcção dela. Já nada mais fazia sentido e o mundo parecia desabar todo em cima da sua cabeça. Sem que pudesse impedir, sem que tivesse uma forma de mudar tudo. E ao tê-la nos seus braços, frágil, e adormecida. Talvez pra sempre, e talvez não.

Naquele momento, ele gritou bem alto. A voz projectou todo o ódio que sentia e a descrença em Deus. Se ela morresse, matá-lo-ia no seu coração também.

A morte não existe. Existe sim, uma passagem pra uma outra existência. Pode ser melhor que esse, mas ninguém garante. Depende de quem acredita.

Stella acordou, logo que a ambulância chegou ao hospital. Não tinha a mínima consciência do que havia acontecido. Chamava pelo nome de Tony frequentemente como se estivesse delirando. E para que ela soubesse que estava ao seu lado todo o tempo, ele apertava a mão dela contra a sua e dizia baixinho, só pra ela: “Amo você!”
Eles levaram-na numa maca para dentro do bloco operatório. Deixaram que Tony assistisse o parto do filho, segurando a mão da mulher.

Ninguém mais pode fazer nada. É assim que vai ser e, assim será. Duas mulheres, diferentes e, ao mesmo tempo, com a força da natureza no sangue. Elas lutam contra a dor, e procuram respostas. Querem respostas.

Mas estava escrito assim e, eu só peço a Deus, um pouco de piedade. Que a inveja não vença o amor. E que a morte não vença a vida.

Morro de S.Paulo

-A bacia com a água quente? – Perguntou Marcela apressada. – Trás também, uma toalha branca e uma tesoura. Hoje, vamos fazer um parto!

Numa das vezes em que fora ao hospital o médico dissera que na mínima urgência pra ir ao hospital, mas o que ele se esquecera de dizer era que estaria numa palestra em S.Paulo. Por isso, Marcela não teve outro jeito que não tomar conta da situação.

Sol mordiscava uma toalha que havia recebido das mãos da amiga, por causa das dores que tornavam-se ainda mais constantes. Queria morrer, mas como astróloga sabia que esse bebé veria pra uma missão importante. E nada podia dar errado.

-Força! Faz esse bebé descer. – Dizia, Marcela. – Não desisti, Sol! Força!

Chegava a sentir uma dor tão intensa que parecia ser duas dores ao mesmo tempo. E isso pesava muito.
Rio de Janeiro

As vozes…os passos, os pequenos movimentos eram captadas pelos seus olhos, e pelos seus ouvidos. Gritava horrores e, ao mesmo tempo, a dor amenizava, somente por saber que o tinha naquele momento. Que ele estava bem e vivo. Acima de tudo, que estaria pra sempre ao seu lado.

Depois de tanta agonia, de tantos gritos, e de muita dor. Os olhos delas se fecharam. De descanso. Procurando silêncio. Silêncio pra reconhecer o choro do bebé,

Stella deixou-se ficar por instantes, de olhos fechados. Toda a força que tinha havia perdido naquela sala.

Dois bebés e um só consegue libertar sua voz pró mundo.
Sol abriu os olhos, procurando a filha. Estranhando a ausência do seu choro. E um aperto tão forte tomou conta do seu peito. Naqueles segundos, havia perdido o ar. Estava em choque, claro.
A vida é como se fosse um espelho. De um lado a imagem feliz, radiante e pelo outro, bem diferente, está a reflexão da sua imagem. A projecção da sua infelicidade.

Tony não conseguia deixar de olhar pra o filho. Perceber o quanto era tão pequenino e o quanto precisava de protecção. De ser amado.

Ele tomou o bebé nos seus braços, tentando manter o controlo. Se firmar no chão pra não desabar.
Se voltou pra ela, trazendo o bebé no colo.

-É o nosso filho!

Os olhos dela brilharam, só de escutar aquilo. E só de ver seu rostinho, e tê-lo nos seus braços fora o momento mais feliz de sua vida.

-Meu filho? – Acenou com a cabeça. – Filipe! Quero que o chamemos de Filipe!
Ele concordou com um aceno de cabeça. Segurou numa mão dela e sorriu.

-Vamos ser muito felizes os três!
Só que de um momento pra o outro, tudo pode mudar. E as certezas se dissipam, tornando-se em dúvidas. Criando o medo, o pavor e a angústia.

O quadro de Stella de um momento pra o outro, piorou. E, quase que podia sentir que estava perdendo sua alma. Ainda estava dentro do seu corpo, só que era por pouco tempo.

A correria dos médicos alertou Tony. Na verdade, fê-lo sentir uma coisa que nunca havia sentido antes, o medo de perder alguém. De perder a mulher amada.

A enfermeira levou o filho pra a incubadora e, aos poucos, Stella foi fechando os olhos. Nem mesmo a voz do marido, gritando seu nome, a fazia retornar. E de repente, o coração parou. Tudo nos pequenos instantes seguinte, travou.

Os médicos tentavam reanimá-la, mas nada dava resultado. E tudo aconteceu tão depressa, que Stella nem percebeu, quando a sua alma saiu do seu corpo.

A morte é uma conquista. A conquista de um novo amanhecer, cheio de beleza e amor. Mas pra atravessar a porta, a gente precisa querer.

Durante um certo tempo, Stella permaneceu de olhar fixo no seu corpo. Um corpo morto e, sem alma. Mas foram breves os segundos em que procurou entender o que estava acontecendo? Sem que devesse por isso, alguma coisa puxou-a pra cima. Puxava-a aos poucos, afastando-a de tudo.

Levitava ao encontro de uma luz. Bela e ao mesmo tempo, perigosa. A paz estava lá, mas se a encontrasse perderia o eclipse do amor.

Ela atravessou paredes, até subir aos céus. Um céu diferente daquela que conhecia e, esta era definitiva. Pra sempre…
Estava tão envolvida pelas estrelas, pelo canto da noite e pela luz que a cada instante, se tornava mais sua. Que a queria como sua.
Por um momento, cedeu a paz. E deixou seu corpo seguir ao encontro da luz. Levitando, até chegar a ela.

Stella…Não!

E parou. O corpo não parou de levitar ao encontro da luz, mas o seu coração parou. Parou pra escutar o triste chamamento do homem que preenchia o vazio em seu espírito. E aquele que entregara o seu coração no seu eu mais puro.

Ela voltou o rosto para trás. Olhou para trás.

-Tony…

O choro dele, fê-la fechar os olhos e relembrar os momentos mais belos do encontro entre o eclipse do amor.

A primeira vez que se chocaram, fora dentro de um elevador. Ele cheio dos seus problemas e, ela cansada de enfrentar problemas.
O medo e a coragem se encontraram presos dentro de um elevador. Sem um canto pra onde se esconder.

E como se fossem um só: revelaram suas angústias, sem nem saber o nome um do outro. Sem nem querer saber o nome um do outro. Apenas, o destino se encarregaria de os unir se assim o quisesse. E com o abrir da porta, cada um seguiu seu caminho. Com medo de nunca mais voltar a chocar um contra o outro, mas confiando que o destino um dia traria um ao encontro do outro.

Ela abriu os olhos e, o chão abriu aos seus pés. Num segundo caiu no profundo silêncio. Na escuridão. Com o forte desejo de uma nova oportunidade e, desafiando a escrita de Deus.

A luz se expande e uma colisão se forma nos céus. E no meio de todo o tumulto, o coração do bebé bate uma, duas e depois frequentemente. E ela grita como se o ar tivesse faltado e, como se já houvesse conhecido a morte de perto. Só que ela regressou e nos céus se forma um dia lindo. O sol nasce brilhante como se a vida, outrora não fosse tão radiante. Não como o que se forma, sempre que o olhar daquele bebé se encontra com a luz do sol e a luz da noite.

O bebé que antes, era um bebé. Agora é uma linda menina de dois anos. Que passeia acompanhada com a mãe pela areia da praia e que cai de vez em quando, mas sempre que sorri, tudo muda a sua volta.

Ela adora olhar o mar. Brincar contando as estrelas ao anoitecer e, com cinco anos, sente uma ligação forte com a lua. Como se fossem um só. De tudo, olhar pra a lua é a coisa que mais gosta de fazer.
Ela se joga no mar como se fosse uma sereia. Mergulha seu corpo dentro das profundezas do mar e, quando vêm átona, renasce nela, uma linda garota. Praticamente mulher.

Sai da água, molhada. O seu rosto é de menina, ingénua, e o seu olhar, é doce. De um castanho brilhante.

Ela brinca na água, e olha ao seu redor. Como se procurando alguma coisa. Depois sorri, revelando existir uma alma pura. E caminha, em cima da água.

O seu vestido é branco e agora molhado, por causa da água do mar. E olhando mais uma vez a sua volta, se encontra no meio da natureza. As gaivotas bebem a água junto ao mar e, os pássaros voam em torno dela.

Ela dança para as borboletas com um véu e, canta para as crianças do orfanato. No meio de um jardim, repleto de lírios, orquídeas e rosas brancas. De um verde puro e enquanto coloca a comida nos pratos, canta para eles. A sua voz é suave que nem um rouxinol.
A noite escreve, no seu diário. Com a janela aberta para poder olhar as estrelas. No quarto, sozinha e somente ela e os seus pensamentos.

E nesses momentos, entende o quanto falta alguma coisa. Uma coisa que não consegue entender o que é…nem mesmo eu sei o que é. Mas tenho a certeza que o destino da minha filha está atrelada ao Rio de Janeiro. Porque é lá que ela vai encontrar as respostas pra todas as perguntas que vem vindo a fazer a si, mesma.
Marcela encarou-a.

-E você é capaz de mandar a Lana pra o outro lado do mundo que ela não conhece, tudo porque você acha que é esse o destino dela? Que sozinha, num lugar que desconhece totalmente, vai ser feliz?
Por instantes silenciaram-se. Depois Sol virou a carta que estava em cima da mesa de cabeça pra baixo e, ao olhar pra ela acenou com a cabeça.

-O sol e a lua precisam se colidir. – Prosseguiu. – Precisam formar o eclipse!
-Eclipse?
-Sim. Se não for nessa vida, será na próxima e assim, sucessivamente, até se dar a colisão. – Disse ela, convicta. - E a Lana é a lua, Marcela! – Exclamou. – Ela tem de encontrar o sol! O lugar da minha filha, não é aqui! E eu tenho a certeza disso…
Nem mesmo ela conseguia ver ao certo que missão tinha a filha. Porquê teria ela de encontrar o sol? Quem era o sol? E de tudo, deixar a filha ir, seria a coisa mais difícil do mundo que uma mãe poderia fazer. Mas se estava escrito assim, não tinha o direito de ir contra a escrita de Deus.

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